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Obsessão pelo ouro olímpico

Está chegando o dia, amanhã a seleção olímpica de futebol masculino fará seu primeiro jogo rumo a conquista do primeiro ouro olímpico. Essa formação da seleção é considerada uma das mais fortes sub-23 dos últimos anos, tendo até mesmo Neymar no elenco que deixou de jogar a Copa América para estar nas olimpíadas.

Mas será mesmo que esse título deveria ser tão valorizado assim? Até que ponto o nível de competição das Olimpíadas serve como parâmetro? Por que há tanta “boa vontade” com a jovem Seleção sub-23? Para tentar responder, analisamos a real importância do futebol olímpico.

Nos últimos jogos olímpicos em 2012, o Brasil perdeu a final para o México e acabou ficando com a medalha de prata.
Nos últimos jogos olímpicos em 2012, o Brasil perdeu a final para o México e acabou ficando com a medalha de prata.

O futebol nas olimpíadas não tem muito prestígio, mas dessa vez estamos vendo as coisas se inverterem. A seleção está com um alto nível de jogadores (pelo menos no papel) sendo que até o Neymar trocou uma Copa América pelos jogos olímpicos, fazendo assim o torcedor ficar mais interessado na seleção olímpica do que na principal.

Dois fatores podem explicar isso: o fato dos Jogos Olímpicos serem no Rio de Janeiro e, o mais importante, a sina brasileira por nunca ter conquistado a medalha de ouro. Prova disso é que, desde a edição de 1996, a CBF escala o treinador da seleção principal para comandar a equipe sub-23, mesmo que eles não tenham se envolvido com o trabalho de base durante todo o ciclo olímpico. E pior: a pressão é tanta que alguns deles até perderam o cargo por conta do desempenho no torneio.

Nas Olímpiadas de 96 que foi sediada em Atlanta, o técnico da seleção principal era Zagallo. Ele foi convocado a treinar a seleção olímpica também e acabou ganhando o bronze. Mesmo assim continuou no cargo até a Copa de 98. O mesmo aconteceu com Dunga que também ganhou bronze em Pequim em 2008 e ficou no cargo até 2010 para a copa do mundo.

Já em Sydney e Londres, os comandantes não tiveram a mesma sorte. Em 2000, Vanderlei Luxemburgo acabou demitido após ser eliminado nas quartas de final para Camarões. Em 2012, Mano Menezes só caiu alguns meses depois, mas certamente a derrota para o México na final olímpica pesou na decisão.

Jovens estrelas que vem fazendo sucesso como Gabriel Jesus e Gabigol estão sob holofotes e todos estão curiosos para ver suas atuações.
Jovens estrelas que vem fazendo sucesso como Gabriel Jesus e Gabigol estão sob holofotes e todos estão curiosos para ver suas atuações.

Um outro fato relevante é que a seleção olímpica é composta na sua maioria por jogadores que atuam aqui no Brasil. Isso aumenta a simpatia do torcedor por ver em campos seus ídolos e jogadores de seu clube de coração. Isso também ajuda a chamar bastante atenção da imprensa.

Isso posto, levantamos a questão: será mesmo que o resultado nesses jogos, e até mesmo em olimpíadas passadas, deveria ser tão valorizado?

Na maioria dos esportes as olimpíadas são o ápice de suas conquistas. Mas em outros esportes ela não é muito interessante. Por exemplo o tênis e até o basquete, principalmente para os americanos. No futebol o esporte é mais desvalorizado ainda.

Ainda assim, uma medalha de ouro é um grande feito para o tênis e o basquete. Já no futebol, disputado apenas por jogadores abaixo de 23 anos, a medalha olímpica fica atrás de praticamente todos os grandes torneios, como a Eurocopa, a Champions League e, obviamente, a Copa do Mundo.

Nos jogos de Atlanta em 96 a seleção conquistou o bronze com uma derrota desastrosa para a Nigéria na prorrogação
Nos jogos de Atlanta em 96 a seleção conquistou o bronze com uma derrota desastrosa para a Nigéria na prorrogação

A moral dos jogos olímpicos está tão ruim que os clubes não tem mais a obrigação de liberar seus jogadores com menos de 23 anos para as seleções. Pelo que vimos a única seleção que conseguiu convocar os melhores garotos foi o Brasil. A olimpíada já não é mais considerada um campeonato profissional.

Considerando esses fatores, o que mais assusta no atual cenário brasileiro é o fato de a CBF ter desvalorizado a Copa América – competição onde a Seleção tinha urgência de “arrumar a casa” para as Eliminatórias – abrindo mão de seu principal jogador por conta do “sonho olímpico”. Por mais que a edição de 2016 do torneio continental também tenha sido atípica, criada apenas para ganhar dinheiro, todas as outras seleções da América jogaram com o que tinham de melhor e era uma grande oportunidade para o Brasil usar sua melhor equipe e testar do que era capaz.

Não podemos desvalorizar a conquista do ouro olímpico caso isso aconteça, mas devemos colocar cada coisa em seu lugar. Essa supervalorização dos jogos nos faz parecer como uma seleção fraca e sem tradição no futebol que faz de tudo para conquistar pequenos títulos enquanto as outras seleções se preparam para conquistas maiores.

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